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O Pequeno Jogador

Uma fábula de basquetebol sobre amizade, aprendizagem e responsabilidade

Edição portuguesa · 27 de outubro de 2026

I

O desenho

Eram cinco da manhã, num pavilhão que não merecia ter nome.

O relógio atrás da mesa de oficiais tinha parado nas 2:42. Um dos cestos inclinava-se ligeiramente para a parede. O edifício inteiro cheirava a piso de borracha e a café que tinha estado quente umas horas antes.

Tinha passado quase toda a noite acordada, a reescrever as notas do nosso primeiro jogo. Tínhamos perdido por vinte e três. As minhas notas culpavam a nossa ocupação dos espaços, as nossas decisões e a nossa entrega, por esta ordem. Cada versão tinha mais pormenores. Nenhuma explicava porque é que a Mara deixara de olhar para mim antes do intervalo.

A voz veio de muito perto do meu cotovelo e, por um instante, assustou-me.

«Podes desenhar-me um jogador que esteja a aprender?»

Levantei os olhos.

Um rapaz estava junto à beira da mesa de oficiais. Teria uns doze anos. Não trazia número do torneio nem cores de clube. Um saco pequeno e gasto estava pousado aos pés dele. Num dos fechos tinha uma fita verde atada. Estava muito quieto.

O rapaz esperava.
O rapaz esperava.

«Um jogador de basquetebol?»

«Se isso ajudar.»

Virei uma das minhas folhas de jogo e desenhei um jogador a segurar uma bola. A figura estava direita, equilibrada e pronta.

O rapaz examinou-a.

«Esse é um jogador à espera.»

Voltei a olhar. Tinha razão. O jogador esperava um apito, uma instrução ou autorização para começar.

Tentei uma segunda vez. Dobrei-lhe os joelhos, pus-lhe a bola nas duas mãos e desenhei-lhe os olhos virados para um cesto imaginário.

«Esse é um jogador que sabe o que tem de fazer», disse o rapaz.

«Não é para isso que serve aprender?»

«Depois, talvez.»

Tentei uma terceira vez. Este jogador driblava com força, cabeça baixa, maxilar cerrado, como se a bola lhe pudesse fugir a qualquer momento.

O rapaz abanou a cabeça. «Não parece que ele goste disto.»

«É preciso gostar de uma coisa para a aprender?»

Os dedos dele encontraram a fita verde no saco. Demorou muito a responder.

«Não sei. É uma das coisas que vim descobrir.»

Pousei o lápis. «Então desenha-o tu.»

«Não consigo. Foi por isso que te pedi a ti.»

Há crianças que ficam envergonhadas quando um adulto se impacienta. Há outras que ficam com medo. Este rapaz limitou-se a esperar que a minha impaciência passasse.

Tentei um pé que chega meio segundo atrasado, uma mão que se estica para um passe desconhecido. No papel, aquilo parecia falta de jeito. Quando eu corrigia, a sensação de aprender desaparecia.

Por fim, desenhei quatro paredes, um telhado, duas janelas altas e uma porta entreaberta.

«Pronto», disse eu. «O jogador que está a aprender está lá dentro.»

O rapaz inclinou-se para ver melhor. Os ombros descontraíram-se um pouco.

«Sim», disse ele. «Lá dentro há espaço que chegue para aprender.»

Lá dentro havia espaço para aprender.
Lá dentro havia espaço para aprender.

Sentou-se no chão, ao lado da mesa de oficiais.

«Não devias estar com a tua equipa?», perguntei.

«Onde está a tua?»

Do outro lado da cidade, as nossas jogadoras dormiam num hotel barato, confiantes de que eu saberia o que fazer quando acordassem. Virei as minhas notas do jogo para baixo.

«O teu nome está nalguma lista?», perguntei. «Uma equipa, um número?»

«Não.»

Disse-o como outras crianças dizem o nome.

Puxei a cadeira ao lado da minha. Primeiro ele levantou o saco, com cuidado, para a fivela não raspar no chão, e sentou-se ao meu lado.

O relógio avariado continuava nas 2:42.

Foi assim que conheci o rapaz sem número.

↑ O Pequeno Jogador
II

Os três cestos

O rapaz ainda lá estava quando chegou o pessoal da limpeza.

Moviam-se à volta dele com esfregonas e contentores de rodas. Ele levantava os pés quando precisavam do chão por baixo e voltava a pousá-los quando já tinham passado. Uma delas perguntou-lhe de quem ele era. Ele respondeu: «De ninguém, hoje», e ela pareceu achar que era uma resposta razoável para um torneio.

«Então porque estás aqui?», perguntei-lhe quando ela se foi embora.

«Queria ver como aprendem os jogadores a sério.»

«Queres melhorar?»

«Achei que podia ajudar.»

Olhou para os campos. Na maioria, as luzes ainda estavam apagadas.

«Tens um campo teu?», perguntou.

Pensei nos campos que tinha usado emprestados durante algum tempo, alugado, tentado alugar e de onde me tinham pedido para sair. «Meu, nenhum.»

«Eu tenho.»

Pouco a pouco, o campo dele foi-se montando com as coisas que contava. Era ao ar livre, atrás de uma fila de garagens, de cimento, com uma rede ao longo de um dos lados e um candeeiro de rua que no inverno acendia tarde demais. Não era grande nem pequeno. Uma fenda atravessava as linhas. A chuva juntava-se no canto esquerdo.

Conhecia cada fenda.
Conhecia cada fenda.

No centro havia um único poste de metal. Saíam dele três braços, cada um com uma tabela e um aro, cada um virado para uma beira diferente do campo.

«Quem é que constrói um campo assim?»

«Alguém que só tinha dinheiro para um poste.»

A partir de qualquer cesto, aquilo era meio campo. Mas para atacar outro cesto não se podia ir pelo caminho curto. Era preciso partir de baixo de um cesto, dar a volta comprida ao poste, passar pelo terceiro cesto do meio e sair para o do lado oposto. Aí o meio campo tornava-se um campo inteiro.

A primeira tabela estava gasta pelo tempo, mas direita. O aro de metal nu não tinha rede nenhuma.

«Esse uso-o para agarrar», disse ele. «Atiro a bola contra a tabela de todos os ângulos. Sem rede, também a posso atirar contra a tabela por baixo do aro. Só conta agarrar.»

A segunda tabela estava torta, e o aro tinha sido puxado para baixo de um lado. Uma rede velha pendia desigual do aro empenado.

«Esse nunca te devolve a bola como estás à espera. Ali somos eu e o cesto, um contra um. Quem chegar primeiro a dez.» Quase se riu. «Ganha quase sempre ele.»

«Porque é que não endireitas o aro?»

«É aquele em que mais aprendo.»

O terceiro cesto era mantido como deve ser: tabela direita, aro redondo e nivelado, e cada malha da rede inteira.

«Esse mantenho-o perfeito, para não me esquecer de como é a perfeição.»

Pela volta comprida, tornava-se um campo inteiro.
Pela volta comprida, tornava-se um campo inteiro.

Os dedos dele encontraram a fita verde no saco.

«Mais alguém usa esse?», perguntei.

«Alguém mais pequeno. Normalmente ela chega antes de mim.»

Os dedos ficaram na fita. Esperei que dissesse mais alguma coisa, mas começou a falar-me da fenda no campo.

«Quem te ensinou isso tudo?»

«Os cestos.»

«Os cestos não conseguem ensinar.»

«Então porque é que pões sempre os teus jogadores ao pé deles?»

Tirei o meu caderno. Ele olhou para o lápis.

«Vais escrever o que eu disse?»

«Talvez.»

«E vais experimentar?»

Pensativa, olhei para o campo para lá do caderno.

Contou-me que todas as manhãs, antes de treinar, dava uma volta ao campo. Procurava pedras soltas, fendas novas e ervas daninhas a nascer entre as linhas.

«Se arrancares a erva quando é pequena, a raiz vem com ela», disse. «Se esperares, parte-se e volta a crescer. Passado algum tempo, achas que o lugar dela é ali.»

«Às vezes saltas a ronda da manhã?»

«Às vezes.»

Aquela resposta aliviou-me. Começava a perguntar-me se ele alguma vez se esquecia de alguma coisa.

«E o que acontece se saltares um dia?»

«O campo continua lá no dia seguinte.»

«Um campo está sempre à tua espera», disse ele. «É uma das razões para ter um.»

Uma das funcionárias da limpeza passou uma esfregona larga entre nós e apagou as nossas pegadas do soalho envernizado.

↑ O Pequeno Jogador
III

Onde ou quando

Às seis, as primeiras equipas começaram a chegar.

Abriram-se portas. Os sacos bateram no chão. As bolas fugiram dos carrinhos e foram chamadas de volta. Os treinadores atravessavam o pavilhão com café e certezas.

O rapaz observava uma rapariga a treinar um corte com o pai. Ela corria da ala para o cesto. O passe bateu na parede atrás dela.

«Outra vez», disse o pai.

Ela correu mais depressa. O segundo passe acertou-lhe no ombro.

«Estás no sítio errado.»

O rapaz olhou para mim. «Está?»

«O passe deve encontrá-la junto ao aro.»

«Eu sei. Mas o problema é onde a apanha, ou quando?»

«O quê?»

«Onde ela vai. Quando a bola vai.»

A rapariga chegava ao sítio certo, mas a bola chegava depois dela. O pai corrigiu-lhe o percurso. Ela fez o mesmo percurso com mais cuidado. O passe voltou a chegar atrasado.

«Quando», disse eu.

O rapaz acenou que sim.

Aproximei-me antes de ter decidido fazê-lo. «Posso experimentar uma coisa?»

O pai olhou para a minha camisola e depois para a bola nas mãos dele. «Faça favor.»

Pedi à rapariga que fizesse o mesmo corte. Desta vez disse ao pai que soltasse a bola no momento em que ela passasse a linha de três pontos. O passe encontrou-lhe as mãos debaixo do cesto.

A cara dela não celebrou o êxito. Reconheceu-o.

O pai disse: «É isso que eu lhe digo.»

A rapariga segurava a bola. «Tu dizias-me para onde correr.»

Ele abriu a boca e depois olhou para a linha que ela tinha passado.

«Podemos repetir mais uma vez?», perguntou-me.

No corte seguinte soltou a bola mais cedo. Ela agarrou-a debaixo do cesto e devolveu-lha.

Desta vez o passe encontrou-lhe as mãos.
Desta vez o passe encontrou-lhe as mãos.

Voltei para a mesa de oficiais.

«Ele não lhe estava a dizer isso», disse o rapaz.

«Não.»

«Porque é que ele achava que sim?»

«Porque os adultos lembram-se muitas vezes da instrução que queriam dar, e não da que deram de facto.»

«Os treinadores também fazem isso?»

«Sobretudo os treinadores.»

Atrás de nós, o pai perguntou: «Isto foi melhor?» Desta vez esperou pela resposta dela.

Depois disso, o rapaz passou a observar-me com mais atenção.

«No nosso jogo de ontem», disse eu, «estivemos sempre concentradas no onde. Se calhar a verdadeira pergunta era o quando.»

«Se calhar.»

«Não pareces convencido.»

«Não vi o jogo.»

Era a primeira vez naquela manhã que alguém se recusava a ter opinião sobre o assunto.

Voltei a virar as notas para cima. Ao lado de ESPAÇOS escrevi TIMING.

Foi a primeira nota honesta que tomei a noite inteira.

↑ O Pequeno Jogador
IV

A sala dos troféus

O diretor do torneio encontrou-nos às seis e meia.

Usava uns auscultadores com microfone, embora ninguém falasse para lá. Olhou para o rapaz e depois para a prancheta.

«Nome? Equipa? Número?»

O rapaz não tinha nenhum dos três.

«As crianças não se podem sentar ao lado da mesa de oficiais sem credencial», disse o diretor.

«Então onde é que ele se pode sentar?», perguntei.

O diretor apontou para um corredor. «Em qualquer lado, menos aqui.»

E lá fomos.

O corredor acabava numa sala de paredes de vidro onde se expunham os troféus de torneios anteriores. As taças enchiam as prateleiras. As fotografias cobriam o resto. Em cada fotografia, um treinador vencedor estava ao centro.

Lá dentro, um homem arrumava medalhas em filas direitas.

«Chegaram cedo», disse ele. «Ótimo. Os vencedores chegam cedo.»

Reconheceu-me e perguntou pela nossa derrota. Antes que eu pudesse responder, ofereceu ele próprio a explicação.

«Não quiseram o suficiente.»

O rapaz olhou para as medalhas. «Quanto é o suficiente?»

O homem sorriu. «Mais do que a outra equipa.»

«Como é que se vê o querer?»

«Vê-se no ganhar.»

«Então como é que o senhor sabe antes do jogo?»

O homem parou de alinhar as medalhas.

Tentei salvá-lo. «Ele quer dizer que os jogadores têm de lutar.»

«Eu sei o que é lutar», disse o rapaz. «O que não sei é como é que perder prova que alguém queria menos.»

O homem pegou numa medalha de ouro e estendeu-a na direção dele.

«Isto prova.»

«E a de prata prova o quê?»

«Que alguém ficou em segundo.»

«Eles queriam a prata?»

«Ninguém quer a prata.»

«Então não pode ser o querer que decide.»

A sala ficou muito silenciosa, para um lugar que continha tanta vitória.

Não pegou na medalha.
Não pegou na medalha.

O homem virou-se para mim. «Ele vem consigo?»

«Não», disse eu.

A resposta saiu depressa demais. O rapaz olhou para mim e depois para a medalha.

O homem retomou as filas. «Ainda bem. Perguntas assim pegam-se.»

Saímos da sala dos troféus.

No corredor, o rapaz disse: «Queres ganhar hoje?»

«Muito.»

«Então ele tinha um bocadinho de razão?»

«Um bocadinho.»

«Que bocadinho?»

Pensei nisso mais tempo do que esperava. «Querer conta. Só que não se mede com uma medalha.»

Ele acenou com a cabeça. Depois disse: «Podias ter dito que eu estava contigo.»

«Mal te conheço.»

«É verdade.»

↑ O Pequeno Jogador
V

A sala de vídeo

A porta seguinte estava aberta.

Lá dentro, seis treinadores viam os jogos da véspera em seis ecrãs. Todos usavam auscultadores. Os jogadores nos ecrãs estavam cobertos de círculos, setas, ângulos e marcas coloridas.

Um dos treinadores fez-me sinal para entrar. «Tirámos uns clipes do vosso jogo.»

Mostrou-me uma posse de bola do segundo período. A nossa base recebia a bola na ala, hesitava e devolvia-a para trás. O treinador congelou a imagem.

«Má decisão.»

Pôs uma etiqueta vermelha naquele momento.

«O que é que ela devia ter feito?», perguntou o rapaz.

«Atacar o espaço.»

«O espaço estava aberto?»

O treinador recuou três segundos. «Ali.»

«Estava aberto antes de ela receber a bola.»

«Exatamente. Foi lenta demais.»

«Ela conseguia vê-lo?»

O treinador ampliou a imagem vista de cima. Do teto via-se tudo.

«Qualquer pessoa vê isto.»

O rapaz apontou para a defensora que estava entre a nossa base e o espaço.

«Nós vemos por cima dela», disse ele. «A tua jogadora conseguia?»

«Devia ter visto.»

«Alguém lhe mostrou para onde e como olhar?»

O treinador não respondeu.

O rapaz manteve o dedo no ecrã, sobre o espaço que a defensora escondia. «Então se calhar nem sequer é um erro», disse devagar. «Se calhar ela ainda não sabe procurar os espaços. Ou sabe, mas do ângulo em que estava esse espaço não se via.»

Passou a unha do polegar pela fita verde. «Eu também já disse a alguém que tinha de ver coisas que ela ainda não conseguia ver.»

O treinador não disse nada. Mudou a etiqueta de vermelho para laranja. Foi uma mudança pequena, mas reparei nela.

Ela conseguia vê-lo?
Ela conseguia vê-lo?

Noutro ecrã, números mostravam cada passe, cada lançamento, cada corrida, cada erro do dia anterior: cada passo que alguém tinha dado. Os números eram lindos. Faziam os jogos parecer que sempre tinham sabido o que queriam dizer.

«Que número a ajuda hoje?», perguntou o rapaz.

«Todos», disse um segundo treinador.

«Ela não os pode levar todos para o campo.»

«É para isso que nos tem a nós.»

Olhei para a imagem congelada da minha base. No intervalo, tinha-lhe pedido onze correções. Conseguia recitá-las. Não me lembrava se ela tinha dito alguma coisa.

«Ela disse-te o que viu?», perguntou-me o rapaz.

«Não.»

«Perguntaste-lhe?»

«Não.»

Não disse mais nada. Levantou-se e ficou à espera junto à porta.

Antes de sair, pedi o clipe. O treinador mandou-mo para o telemóvel, sem marcação nenhuma.

Vi-o no corredor. Sem as setas, tive de o ver três vezes para encontrar o espaço.

↑ O Pequeno Jogador
VI

O jogador que desistiu

No regresso da sala de vídeo, passámos pelo Campo Cinco.

Um jogo estava no último minuto. Na mesa de oficiais estava sentado um rapaz alto, de uns dezassete anos, com um cordão de voluntário ao pescoço. Controlava o relógio sem levantar os olhos. Ao lado do boletim de jogo estava um caderno grosso, de capa mole e dobrada.

O rapaz parou.

«Ele não está a ver o jogo», disse.

«Está a trabalhar.»

«Isso também não está a ver.»

Soou a buzina. As equipas cumprimentaram-se, e as duas seguintes começaram a aquecer. O voluntário ficou onde estava. Sentámo-nos na ponta da mesa dele.

«Jogas?», perguntou-lhe o rapaz.

«Jogava.»

«Porque é que desististe?»

«O treinador não confiava em mim.»

«Porque não?»

«Porque eu não melhorava.»

«E porque é que não melhoravas?»

«Porque ele não me punha a jogar.»

O círculo estava fechado. Já tinha ouvido versões daquilo muitas vezes, quase sempre do lado seguro de uma secretária.

O rapaz olhou para o caderno. «O que é que tem aí?»

O jogador mais velho virou-o para nós. Página após página, numa letra pequena e cuidada: datas e, por baixo de cada data, frases. Cotovelo para dentro. Bola mais alta. Não olhes para o banco. Vê o lado fraco. Lança com confiança. Abranda. Mais rápido. Algumas linhas estavam riscadas. Algumas estavam escritas duas vezes.

«Tudo o que os meus treinadores me disseram», disse ele. «Quatro anos. Escrevi tudo para não me esquecer.»

«E esqueceste-te?»

«Não. O problema foi esse.» Fechou o caderno. «No fim, sempre que recebia a bola, tinha tudo na cabeça ao mesmo tempo. Não se consegue jogar com quarenta páginas na cabeça.»

«Eles estavam errados?»

«Quase sempre tinham razão.»

«Então o que é que estava errado?»

Ele pensou. «Nunca ninguém me disse qual delas importava, e quando. E sempre que eu experimentava alguma coisa sozinho, aparecia uma página nova.»

O rapaz virou-se para mim. «Já fizeste alguém desistir?»

O caderno do jogador mais velho estava entre nós. Eu não tirava os olhos da capa dobrada.

«Provavelmente mais do que uma vez», disse eu. «Mas de um tenho a certeza. Um rapaz que não conseguia fazer o lançamento na passada com a esquerda. Achava-o bom. Pedi-lhe que viesse mais cedo aos sábados, em parte para lhe ensinar, em parte para ver se ele queria o suficiente.»

«E ele veio?», perguntou o jogador mais velho.

«Duas vezes. No terceiro sábado, não. Também nunca mais voltou aos treinos.»

«E o que é que disseste a ti mesma?»

«Que ele não era determinado o suficiente.»

Durante algum tempo, ninguém disse nada.

O rapaz chegou a cadeira para perto da minha. As pernas fizeram um pequeno ruído queixoso no chão.

O rapaz voltou-se outra vez para o jogador mais velho. «De que mais te lembras?»

O jogador mais velho olhava fixamente para o chão.

Por fim disse: «Uma vez veio um passe do canto. Agarrei-o sem olhar. Quem o atirou sabia onde eu ia estar. Ninguém precisou de dizer uma palavra.»

«Ainda conseguias agarrar esse?»

«Não sei.»

Uma bola do aquecimento tinha rolado para debaixo da mesa. O rapaz apanhou-a. Sem avisar, passou-a: não com força, mas mal. O jogador mais velho agarrou-a contra o peito.

«Foi um passe horrível», disse ele.

«Mas agarraste-o.»

O jogador mais velho olhou para a bola nas mãos.

Uma rapariga do aquecimento acenava para que lha devolvessem. Ele não a fez rolar. Levantou-se e passou-lha, tensa e rápida, e ela agarrou-a sem perder o passo.

Voltou a sentar-se. Passado um momento, guardou o caderno no saco, debaixo da mesa, e fechou o fecho.

As mãos dele lembravam-se.
As mãos dele lembravam-se.

Fomos embora antes de o jogo começar.

No corredor, disse eu: «Devias tê-lo avisado antes do passe.»

«Então não ia saber se as mãos dele se lembravam.»

«Podias tê-lo assustado.»

O rapaz franziu a testa. Foi a primeira correção minha que não aceitou com facilidade.

«Resultou», disse ele.

«Desta vez. Isso não sabias antes de atirar.»

Depois disso caminhou calado, a olhar para as próprias mãos. Na porta seguinte, esperou que eu o alcançasse.

↑ O Pequeno Jogador
VII

Catorze exercícios

Ao fundo do edifício, um apito soava de vinte e quatro em vinte e quatro segundos.

Seguimo-lo até ao Campo Doze. Sete crianças passavam de exercício em exercício enquanto um treinador arrumava os cones, ia buscar bolas, olhava para o relógio e voltava a apitar.

Contámos catorze exercícios, trinta e cinco apitos, nenhuma pergunta e água nenhuma.

Quando o treino acabou, o treinador sentou-se encostado à parede. Parecia demasiado cansado para tirar o apito da boca.

«Que problema é que o sétimo exercício resolvia?», perguntou o rapaz.

O treinador fechou os olhos. «Qual era o sétimo?»

«Duas filas. Receber, pivotar, passar.»

«Esse fazemos sempre às sete e um quarto.»

«Isso é quando. Serve para quê?»

O treinador abriu os olhos.

Eu esperava que ele se defendesse. Em vez disso, disse: «Antes eu sabia.»

Contou-nos que houve um tempo em que cada exercício tinha uma razão. Um ensinava os jogadores a levantar a cabeça e olhar antes de pensarem nas mãos. Outro, o segundo apoio depois de uma paragem. Outro obrigava a escolher entre passar e penetrar.

«Depois o clube introduziu um programa», disse ele. «Depois avaliações. Depois mais escalões. As explicações foram ficando mais curtas. Já não havia ninguém a quem perguntar quando alguma coisa deixava de funcionar.»

«Fazer a mesma coisa todos os dias», disse o rapaz. «Isso é bom?»

«Antes era. Foi assim que eles aprenderam.»

«E agora?»

«Agora foi assim que eu deixei de pensar nisso.»

«Podemos fazer o sétimo?», perguntou o rapaz.

O treinador olhou para a saída. «Daqui a dez minutos tenho outro grupo.»

«Então dá para umas repetições.»

Puseram-se um em frente do outro. Receber, pivotar, passar. Devagar.

Na quinta repetição, o treinador disse: «Mantém o pé de pivô no chão.»

Na sexta: «Vê para onde vais passar antes de receber.»

Na sétima, parou.

«Era para isto que servia.»

Para a oitava, tirou o cone que dizia ao rapaz para que lado virar.

«Agora escolhe tu», disse.

O rapaz recebeu, leu onde estava o treinador e pivotou para longe dele.

«Melhor», disse o treinador.

Para a oitava, tirou o cone.
Para a oitava, tirou o cone.

Quando o grupo seguinte entrou, os cones ainda estavam empilhados. O treinador sentou as crianças e perguntou-lhes o que esperavam daquele treino.

Nenhuma sabia. Ele esperou na mesma por uma resposta.

Quando chegávamos à porta, chamou por mim: «O teu primeiro exercício de segunda-feira. Serve para quê?»

Nem me deu tempo de abrir a boca.

«Enfim, dizes-me quando vieres ao próximo torneio», disse ele.

«Gostei dele», disse o rapaz ao sairmos.

«Porquê?»

«Porque ele queria lembrar-se.»

«Parecia cansado», disse eu.

O rapaz olhou para trás através do vidro.

«Fui duro demais com ele?»

«Acho que não. Só o ajudaste a lembrar-se.»

Atrás do vidro, o treinador ouvia uma menina que acabara de levantar a mão.

↑ O Pequeno Jogador
VIII

Os mesmos ténis

Por volta das oito, o corredor principal estava cheio.

Os jogadores iam de campo em campo com sacos idênticos. Em cinco minutos passaram por nós mais de cinquenta rapazes. Muitos traziam os mesmos ténis. Muitos traziam a mesma expressão séria que os adultos fazem quando querem parecer ocupados.

Uma mulher com auscultadores encaminhava-os.

«Campo Três para o Campo Sete. Campo Oito para o Campo Quatro. Equipa azul, lá para cima. Equipa vermelha, do outro lado da rua.»

«Para onde é que eles vão?», perguntou o rapaz.

«Para o próximo jogo.»

«E depois?»

«Para o seguinte.»

«Quando é que param?»

«Quando perdem.»

Ao lado dela estava um olheiro, debaixo de um cartaz que dizia MAIS LONGE, MAIS RÁPIDO. Oferecia avaliações, rankings, lugares em equipas de torneios, treinos individuais, campos de elite e um programa que prometia saltar um ano de desenvolvimento.

«Que ano?», perguntou o rapaz.

«O lento», disse o olheiro.

«O que acontece no ano lento?»

«Sobretudo fundamentos.»

«Então porque é que eu havia de querer saltá-lo?»

O olheiro deu-lhe um folheto. Na capa, um jogador voava através de fumo em direção a um cesto que nunca teria cabido naquela fotografia.

«E onde é que eu chego?», perguntou o rapaz.

«Ao nível seguinte.»

«E o que é que há lá?»

«O nível a seguir.»

O rapaz devolveu o folheto.

«Acho que vou a pé.»

O olheiro já se tinha virado para outra família.

Continuámos pelo meio da multidão. Junto às portas, uma equipa sentada num banco ria-se de qualquer coisa que tinha acontecido ao pequeno-almoço. Uma jogadora, de pé no meio, imitava a maneira como outra tinha deixado cair um tabuleiro. O riso delas fazia à sua volta uma pequena bolha invisível e alegre.

O rapaz ficou a olhar tempo demais.

O rapaz ficou a olhar tempo demais.
O rapaz ficou a olhar tempo demais.

«A Nia ri-se assim», disse ele. «Quando falha um lançamento ou perde a bola, volta a fazer a cena toda, desde o início.»

Era a primeira vez que dizia o nome dela.

«Uma vez a bola dela caiu na poça», disse ele. «Deu-me o saco para segurar e esticou-se para a apanhar. O ténis saiu-lhe do pé e caiu lá dentro também. Então fiquei eu com o saco dela e a bola dela, e ela a pescar o ténis.»

Quase sorriu. A mão abriu-se, como se ainda segurasse aquelas coisas.

«Podias juntar-te a elas», disse eu, apontando a equipa com a cabeça.

«Não as conheço.»

«Isso costuma acontecer antes de nos juntarmos às pessoas.»

«Já têm jogadoras que cheguem.»

«Numa equipa costuma haver lugar para mais uma.»

Parou de andar e apertou a alça do saco. Eu tinha mais coisas para dizer, mas fiquei por ali.

«Ficas sentado comigo até elas chegarem?», perguntei.

Ele acenou que sim.

Encontrámos o banco à porta do meu balneário. Deixou-me lugar sem levantar os olhos.

↑ O Pequeno Jogador
IX

O banco

A minha equipa chegou às oito e um quarto.

Encontraram-nos no banco à porta do nosso balneário. A Tess deu-me a chave do quarto, que eu tinha deixado na porta do hotel. A Mara pediu ao rapaz que tirasse o saco para ela se poder sentar.

Juntei-as à volta do ecrã vazio da sala de vídeo.

«Ontem dei-vos respostas a mais», disse eu. «Hoje tenho só duas perguntas.»

A Tess, a nossa capitã, cruzou os braços. «Ontem tinhas onze respostas. Agora queres as nossas?»

«Quero.»

Ela não descruzou os braços.

Pus a passar o clipe sem marcações da nossa base na ala.

«Mara, o que é que viste?»

A Mara olhou para mim para perceber se aquilo era um teste.

«A alta delas estava subida. Achei que o espaço ia fechar.»

«De que é que precisavas?»

«Do passe mais cedo. Ou da Liv a cortar mais tarde. Chegámos ao mesmo tempo.»

Onde e quando.

A Liv inclinou-se para a frente. «Pensei que estava atrasada.»

«Estavas adiantada», disse a Mara.

Vimos outra vez. À medida que olhávamos de ângulos diferentes, as decisões ganhavam formas diferentes.

Durante vinte minutos, as jogadoras falaram mais do que eu. As explicações delas eram muito desarrumadas. Contradisseram-se muitas vezes, mas no fim encontraram um problema que as minhas três páginas de notas tinham deixado escapar e que estivera sempre à frente dos nossos olhos. Perto do fim, a Tess disse: «A alta delas sobe sempre quando rodamos a bola para o outro lado.» Depois ficou com ar irritado por o ter dito.

Foi então que a Mara reparou no rapaz.

«Ele treina connosco?»

Olhei para ele. Lembrei-me da sala dos troféus.

«Está comigo», disse eu.

O rapaz baixou os olhos.

«Sabe jogar?», perguntou a Mara.

«Sei», disse ele.

«Boa. Somos nove.»

No campo jogámos três contra três num cesto. A Mara propôs que um cesto só contasse se os três jogadores tivessem tocado na bola. As outras aceitaram experimentar.

O rapaz movia-se lindamente sem bola. Parava em equilíbrio, via o espaço cedo e agarrava todos os passes difíceis.

Mas sempre que recebia a bola, ficava paralisado.

Examinava cada opção até ela desaparecer.

«Passa!», gritou a Mara.

Fez o passe seguro, de volta para onde a bola tinha vindo.

A posse seguinte foi igual. Ele sabia encontrar o espaço. Deixar a bola com outra pessoa era mais difícil.

Parei o jogo.

«O que é que vês?», perguntei-lhe.

«Muitas coisas.»

«Escolhe uma.»

«E se estiver errada?»

«Então corrigimos juntos», disse a Mara.

«Ainda não tenho a certeza.»

«Viste a Liv arrancar», disse eu. «Experimenta o passe quando ela for. Depois vemos o que aconteceu.»

Na posse seguinte, recebeu em cima. A Liv cortou. Ele passou, e a defensora da Liv já estava na linha de passe. Desviou a bola.

«Outra vez», disse a Liv.

À segunda, a defensora nem sequer olhou para a Liv. Tinha a certeza de que o passe ia chegar.

A Mara parou a bola. «Ela não te está a defender a ti. Está a defender o teu passe. Tu nunca vais ao cesto, por isso ela não tem de se preocupar contigo.»

O rapaz olhou para o cesto como se alguém o tivesse aproximado.

A Liv apontou para o arco pintado debaixo do aro. «Se conseguires pôr-lhe dois olhos, ele sorri-te. É o Carinha. Tenta lá chegar. Obriga-a a sair a ti.»

Da vez seguinte, ele penetrou: dois passos em direção ao Carinha. A defensora da Liv largou-a para o travar. Ele passou. A bola encontrou a Liv em corrida. A Liv marcou na passada e apontou para ele. A Tess agarrou a bola debaixo da rede e levou-a para trás da linha de três pontos.

Pela primeira vez, o rapaz sorriu sem tentar esconder.

Obriga-a a sair a ti.
Obriga-a a sair a ti.

Nos últimos minutos tirámos a regra de os três terem de tocar na bola. A Liv continuava a mostrar-lhe as mãos quando arrancava. Ele continuava à procura do momento certo para o passe. Uma vez, quando ninguém lhe saiu ao caminho, ficou com a bola e marcou sozinho. Ninguém lhe tinha dito para o fazer.

Com o passe seguinte, a Tess encontrou a Mara no espaço livre. Na posse a seguir, a Tess pediu a bola de volta. A Mara deu-lha.

Quando parámos, o rapaz sentou-se ao meu lado para voltar a apertar o ténis. Afastei o pé para não o atrapalhar. Ele acabou o nó e deixou-se ficar.

↑ O Pequeno Jogador
X

O jogo

Ao intervalo, perdíamos por onze.

A versão antiga de mim entrou primeiro no balneário. Trazia a folha de estatísticas, ajustes, marcações individuais e um discurso sobre urgência. Estava pronta a encher cada silêncio antes que as jogadoras conseguissem sequer ouvir-se a pensar.

Deixei-a à espera lá fora.

«O nosso problema é de tempo ou de espaço?», perguntei.

A Mara respondeu primeiro. «Tempo. Estamos a ver, mas a bola chega depois de a ajuda voltar.»

«O que é que podemos mudar?»

As jogadoras discutiram. A Hanna queria mais penetrações: se entrássemos no garrafão, a ajuda teria de decidir cedo. A Tess queria os cantos ocupados, para a ajuda ter mais caminho a fazer e nós termos espaço para usar. Alguém queria menos dribles e mais cortes. A Liv disse que cortávamos porque o sistema mandava, não porque o espaço lá estava.

«Então parem de tentar jogar o sistema», disse eu.

A minha adjunta ficou a olhar para mim. «Gastámos os nossos últimos três treinos nisso.»

«Então jogamos o quê?»

«O que virmos», disse a Liv. «O que nos derem.»

«Então os três treinos não serviram para nada?»

«Serviram», disse a Mara. «É graças a eles que sabemos o que estamos a ver.»

O rapaz estava sentado na ponta do banco, com uma camisola de aquecimento suplente. O regulamento do torneio não o deixava jogar. Seguia cada posse como se estivesse lá dentro.

No terceiro período errámos mais depressa. A Mara penetrou direita contra um muro de ajudas. A Liv cortou cedo demais. A Hanna passou para um espaço que ainda ninguém tinha escolhido.

Estive quase a pedir um desconto de tempo.

Depois começaram a ajustar-se.

Os passes saíam mais cedo. Os cortes esperavam. Os cantos enchiam-se. Em cada lançamento, as cinco iam ao ressalto. Quando o ganhávamos, corriam todas, até a Hanna, que detestava correr. Um lançamento falhado, depois do ressalto, tornava-se mais um passe e um lançamento melhor. O banco começou a dizer em voz alta o que via.

«Canto vazio.»

«A ajuda está lá.»

«Extra!»

O passe da Hanna foi parar à terceira fila.

«Eu ainda não tinha arrancado!», gritou a Liv.

A Hanna acenou que sim e correu de volta para a defesa.

A meio do último período, a Mara pôs-se à frente de uma jogadora que penetrava e fixou os apoios. A jogadora foi direita contra ela. O apito foi contra a Mara.

O árbitro teria uns dezasseis anos. Estava atrás do lance.

A Mara virou-se para ele, furiosa. Levantei-me.

«Pareceu-me que estavas lá», disse-lhe eu. «Perguntamos-lhe no intervalo. Continua a jogar.»

Ela continuava a olhar fixamente para o árbitro.

«Cesto torto», disse o rapaz, da ponta do banco.

A Mara olhou para ele sem perceber o que queria dizer. Soltou o ar e correu de volta para a defesa.

Duas posses depois, a mesma jogadora voltou a penetrar. Desta vez a Mara chegou um passo mais cedo, de frente e parada, de maneira que até um árbitro atrás do lance a podia ver. Desta vez ele apitou falta ofensiva.

Na posse seguinte, foi a primeira a chegar a uma bola perdida. Quando a rapariga que corria atrás dela tropeçou ao seu lado, a Mara baixou-se e ajudou-a a levantar-se.

A dez segundos do fim, perdíamos por um.

Pedi desconto de tempo.

As jogadoras olharam para mim.

«O que é que veem?», perguntei.

Ninguém respondeu logo. Depois o rapaz inclinou-se para a frente.

«Quando a Mara levanta a bola, para onde olha a alta delas?»

«Para a bola», disse a Liv. «Sempre para a bola.»

A Liv tirou-me o marcador da mão e pôs dois pontos dentro do pequeno arco debaixo do cesto. Fez uma cara sorridente. O rapaz sorriu-lhe de volta.

«O Carinha», disse a Liv.

Desenhou cinco círculos pequenos, bem abertos: dois nos cantos, dois nas alas e um em cima. Depois uma seta pelo espaço até ao Carinha.

A Mara apontou para ela. «Consigo chegar lá.»

«E se vierem para me parar?», perguntou a Mara.

A Liv traçou uma linha de volta ao canto. «Então eu estou aqui.»

As outras inclinaram-se. A Tess abriu mais um círculo. A Hanna apagou uma linha que cortava o caminho da Mara. A Liv pôs-se a si própria no canto e bateu duas vezes no quadro.

A jogada delas, no nosso quadro.
A jogada delas, no nosso quadro.

«E se falharmos o lançamento?», perguntou a minha adjunta.

«Então falhamos o lançamento», disse a Mara.

A Mara penetrou em direção ao Carinha. A alta delas saiu em ajuda para a travar. A Liv ficou aberta e mostrou as mãos para o passe, e a bola chegou-lhe antes de a defensora conseguir voltar.

Recebeu, fixou os apoios e lançou.

A bola rodou no aro e saiu. A Tess foi ao ressalto. A buzina soou antes de ela a conseguir voltar a lançar.

Perdemos por um.

Durante uns segundos, ninguém se mexeu.

A Liv sentou-se e desapertou os atacadores de um ténis. As mãos tremiam-lhe um pouco. A Tess sentou-se ao lado dela sem dizer nada.

Depois a Liv apontou para a Mara. «Aquele era o passe certo.»

«Mesmo assim queria que tivesse entrado», acrescentou.

«Eu também», disse a Mara.

O rapaz olhou para a Liv. «Para a próxima?»

«Para a próxima», disse ela.

Na fila dos cumprimentos, a outra treinadora segurou-me a mão um instante mais do que o costume. «Mudaram alguma coisa ao intervalo», disse ela. «Ainda não sei se nos fez piores a nós ou melhores a vocês.»

O rapaz esperava junto ao túnel.

«Achas que aprendemos alguma coisa?», perguntei-lhe.

«Vais saber se amanhã ainda lá estiver.»

↑ O Pequeno Jogador
XI

O trabalho debaixo do soalho

Depois do jogo, o rapaz devolveu à Mara a camisola emprestada. Uma bola rolou para debaixo da bancada mais baixa.

O rapaz meteu-se lá dentro atrás dela. Ouvimo-lo chamar do escuro.

Por trás dos assentos recolhidos havia um espaço de serviço estreito, cheio de pó, fita velha e objetos perdidos ao longo de muitas épocas: uma meia vermelha, duas garrafas de água, um apito, uns óculos de criança e dezenas de bolas de basquetebol que tinham ficado moles.

A funcionária do pavilhão apareceu com uma bomba de mão.

«Depois de cada torneio», disse ela, «recolho o que o edifício engoliu.»

Experimentou cada bola. Algumas seguravam o ar. Algumas perdiam pela válvula. Uma tinha-se aberto ao longo de uma costura.

«Porque é que as arranja?», perguntou o rapaz. «Lá em cima há novas.»

«Lá em cima acham sempre que há novas. Cá em baixo sabemos quantas há.»

Deu-lhe a bomba.

Ele trabalhou até a primeira bola ficar redonda nas mãos dele. Era um trabalho lento. Nada naquilo parecia melhorar ou aprender.

«Quem é que a vê fazer isto?», perguntou ele.

«Normalmente, ninguém.»

«Então como é que eles sabem que é importante?»

«Não sabem. Amanhã driblam a bola.»

Encheu outra.

Enquanto ele enchia, eu empilhava as bolas que seguravam o ar. Os ombros começaram a doer-me de uma maneira agradável. Por cima de nós, os jogos continuavam. Os ténis chiavam. Os apitos soavam.

Amanhã driblam a bola.
Amanhã driblam a bola.

A funcionária baixou-se e apanhou alguma coisa do pó. Uma fita verde.

«É tua?»

O rapaz apalpou o fecho do saco. O nó tinha-se desfeito enquanto ele rastejava.

«É da Nia», disse ele.

Não a voltou a atar. Segurou-a esticada na palma da mão.

Chamava-se Nia, contou-nos. Tinha oito anos e morava perto do campo dele. Ao fim do dia, treinava debaixo do cesto perfeito, porque era o único a que conseguia chegar. Ele apanhava-lhe os ressaltos. Ela contava os cestos.

«Às vezes chegava antes de mim, sentava-se em cima da bola e ficava à minha espera. Dizia que era assim que a reservava.»

Dizia que era assim que a reservava.
Dizia que era assim que a reservava.

Pôs a fita por cima do joelho.

«Atou isto à rede para toda a gente saber qual era o cesto dela. Uma vez pediu-me para ver um lançamento dela. Eu estava a arrancar ervas. Ela esperou até eu pousar o sacho.»

«Entrou?»

«Não. Disse que eu não estava a ver bem.»

Sorriu um pouco e voltou a pegar na bomba.

«Ajudei-a com os pés. Depois com as mãos. Às vezes era ela que pedia. Passado algum tempo, já não esperava que ela pedisse.»

«E ela, o que fazia?»

«Às vezes experimentava. Às vezes segurava a bola até eu parar de falar. Eu achava que ela estava a ouvir.»

Ele queria que ela amasse o jogo. Tinha começado a decidir como esse amor devia ser.

Depois os mais velhos tinham começado a aparecer ao domingo à tarde. Às seis jogavam nos outros dois cestos até o candeeiro acender.

«Da última vez que fui, ela já estava a jogar com eles. Eu tinha-lhe levado a bola pequena dela. Ela acenou, mas não veio ter comigo.»

Virou a fita.

«Chamei-a. Ela disse que eu também podia jogar. Eu disse-lhe que ela não estava preparada para eles. Ela perdia a bola sempre que se aproximavam dela.»

Apertou a bomba entre os joelhos.

«Continuei a dizer-lhe onde se pôr. Ela disse-me para parar. Depois falhou um lançamento e eu voltei a falar-lhe dos pés.»

«E ela disse o quê?»

«Que eu guardava o cesto perfeito para mim. Arrancou isto da rede e pôs-mo na mão. Disse: “Fica lá com o teu cesto perfeito.”»

«Mas tu guardava-lo para ela.»

«Sim.»

Por cima de nós, alguém deixou cair uma bola. Ficámos a ouvi-la saltar algumas vezes.

«Perguntei-lhe quando é que ela queria treinar. Ela disse que podia treinar sozinha.»

Pousou a bomba.

«Eu ainda tinha a bola dela nas mãos.»

A funcionária pegou na bola cheia e fê-la saltar uma vez. Lá em baixo, o som era mais alto.

«Por isso vim para aqui», disse ele. «Para ver como aprendem os jogadores. E os treinadores.»

A funcionária devolveu-lhe a bola e continuou a experimentar válvulas.

«Posso levar esta?», perguntou ele.

«Podes. Traz-ma de volta se a válvula começar a perder.»

O rapaz voltou a passar a fita pelo fecho, atou-a duas vezes e apertou bem o nó.

Levámos as bolas boas lá para cima. Na última viagem, ele tirou uma do meu monte. Subimos devagar, e nenhum de nós disse grande coisa.

↑ O Pequeno Jogador
XII

O passe de volta

Ao fim da tarde, o pavilhão do torneio tinha ficado vazio.

A minha equipa tinha voltado para o hotel. A funcionária ia apagando os campos, uma fila de luzes de cada vez, a começar pelo fundo. Durante o dia, alguém tinha arranjado o relógio atrás da mesa de oficiais. Marcava cinco e dez.

O rapaz olhou para o relógio.

«Ainda há autocarro?»

Vi o horário no telemóvel. Havia mais um.

«Amanhã é domingo», disse ele. «Os grandes vêm às seis.»

Eu tinha pensado que talvez pudéssemos ficar no Campo Um até a funcionária ter de fechar.

«A Nia vai lá estar?»

«Normalmente chega antes de mim.»

Pôs a alça do saco ao ombro. Levava a bola arranjada debaixo do outro braço.

Encontrámos a saída quando a última fila de luzes se apagava.

Lá fora, autocarros de equipas passavam do outro lado do parque de estacionamento. Ele abriu o saco. Lá dentro havia uma bola pequena e um sacho para arrancar ervas das fendas. Pôs o meu primeiro desenho — o pavilhão com a porta entreaberta — entre os dois.

«Não o acabei», disse eu.

«É por isso que o quero.»

Depois desatou a fita do fecho e enrolou-a em dois dedos.

«Vais voltar a atá-la ao cesto perfeito?»

«Vou dá-la a ela. Ela que a ate onde quiser jogar.»

Apontou para a paragem do autocarro do outro lado da rua. Atravessámos juntos.

«Ainda não lhe disse que tenho pena», disse ele.

Sentámo-nos no banco do abrigo. A bola estava encostada aos ténis dele. No vidro, os nossos reflexos estavam sentados ao nosso lado, um pouco mais escuros e um pouco mais longe.

O autocarro vinha atrasado. Nenhum de nós se queixou.

Ficámos sentados mais um bocado. Do outro lado da estrada, as luzes de um campo acenderam-se, umas a seguir às outras. Ele inclinou-se para a frente para ver se estava lá alguém.

O autocarro vinha atrasado. Nenhum de nós se queixou.
O autocarro vinha atrasado. Nenhum de nós se queixou.

«Quando vires um campo pequeno iluminado à noite», disse ele, «não vais saber se é o meu.»

«Não.»

Alisou a fita com o polegar.

«Não sei se ela vai esperar.»

Fiquei ao lado dele. Ainda não havia nada na estrada.

O autocarro dobrou a esquina.

Ele pegou na bola. Estiquei a mão para o saco dele antes de me lembrar que era dele. Deixou-me levá-lo até à porta.

«Vais voltar?», perguntei.

«Não sei.»

A resposta foi pequena e muito normal. Eu não tinha nada de útil para responder.

Pegou no saco. No degrau de cima, virou-se e levantou a mão. Levantei a minha.

Escolheu um lugar à janela e pôs a bola nos joelhos. Quando o autocarro arrancou, levantou as duas mãos contra o vidro, abertas, como a Liv mostrava as dela antes de cortar.

Devolvi-lhe o passe.

Depois de o autocarro partir, fiquei até o vidro do abrigo só guardar o meu reflexo.

Durante algum tempo, sempre que virava uma folha de jogo, esperava ouvir uma voz junto ao meu cotovelo.

Nas noites em que passo por um campo com as luzes acesas, paro. Procuro um rapaz à espera que passe a impaciência de outra pessoa. Às vezes há só um funcionário a fechar. Às vezes ouço uma bola muito antes de ver quem está a jogar.

Não sei o que a Nia disse quando ele chegou a casa. Tentei imaginar, mas conhecer só um lado da história não me ajudou.

Continuo a tentar desenhar o jogador que está a aprender.

Todas as versões estão por acabar. Em todas deixo a porta um pouco mais aberta.

↑ O Pequeno Jogador